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Texto
JOSÉ NORBERTO FLESCH
Ilustração ANDRÉ GOMES
Quantos
amigos você tem? Para muita gente, esta frase, bastante ouvida
principalmente entre os usuários do Orkut, famoso site de
relacionamentos, significa uma avaliação de currículo. A culpa é
da importância que o network ganhou em época de tecnologia avançada.
E daí começam os problemas. Imagine o chefão de uma
multinacional. Todo mundo quer entrar na rede de contatos dele.
Mesmo quem tem um cargo não tão poderoso percebe fácil que não
falta puxa-saco na fila, uma babação que normalmente tem como
finalidade um emprego ou uma indicação para tal.
Falta uma etiqueta nessa história toda. Até que ponto é falta
de educação se aproximar de alguém para fazer parte de seu
network? Vale a pena aumentar sua lista de contatos diariamente?
Como lidar com os interesseiros à espreita?
"Quando você entra em uma companhia, perde o seu sobrenome.
É o fulano da empresa tal. Se está desempregado, é o fulano
desempregado. Então você acaba ganhando um rótulo, e esse network
é perigoso quando as pessoas começam a gerenciar em função
dele", fala Marcelo Ferreira, presidente da Adidas no Brasil.
A consultora Regina Silva, sóciadiretora do instituto Gyraser,
especializado em gestão de carreira, reforça essa idéia.
"Hoje, todo mundo sabe que a maior parte das oportunidades
surge a partir do network. Só que as pessoas confundem as coisas.
Pensam: 'quando eu precisar, ligo e pronto'. Não é isso. Uma boa
rede profissional de contatos deve funcionar como um processo contínuo
de relacionamento. É como uma amizade, e você não telefona para
um amigo só de vez em quando", alerta.
Marcelo Ferreira que o diga. Por conta dessa diferença entre
quem é amigo e quem se faz de, ele propõe que cada um divida sua
rede em duas. "Tenho um network com pessoas que começaram
comigo, há 20 anos. São pessoas que procuro ouvir, ajudar e
retribuir. É gente que sempre esteve comigo, independentemente de
onde eu estivesse. A primeira parte de sua rede de contatos é essa,
que você terá por muito tempo. A outra é a momentânea, que você
tem de tirar o máximo de proveito. É uma relação fria,
totalmente mecânica, difere do cartão apenas porque é eletrônica.
Para gerar negócios, pode até ser produtiva, mas para fazer
amigos, para a questão social, não me atingiu", avalia o
executivo.
Regina Silva diz que um network é feito para que seja algo contínuo.
"Você precisa manter contato com as pessoas, nem que seja em
ocasiões especiais, como aniversário, Natal. Tem gente que guarda
500 cartões, mas nunca entra em contato. Essa rede precisa ser
ativada. É necessário criar vínculos", ensina a consultora.
Ela afirma que, em relação a um nome que esteja na lista de alguém,
vale a pena ligar, dizer onde conheceu, convidar para um café,
fazer com que o outro saiba quem está mantendo contato. "Até
na hora de tomar um cafezinho no bar, se souber o nome do garçom
ele vai tratar você diferente", orienta.
Quando o assunto é rede de
contatos profissionais, mais vale a qualidade do que a quantidade.
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Se o Orkut ostenta a aura de principal site de
relacionamentos, tanto para a área profissional como
para a pessoal, há quem tire ao mesmo tempo proveito
e aborrecimento dele no lado comercial. É o caso da
publicitária Iris Freitas Duarte, diretora de
criação da IFD Comunicação. "Entrei apenas para
fazer contatos na minha área de atuação. Postei meu
portfólio em várias comunidades e as pessoas foram
chegando; umas queriam dicas, outras buscavam saber
mais sobre o meu trabalho", lembra.
Mas falta senso ético a muita gente, segundo Iris.
"O site está cheio de comunidades do tipo 'Pelo Amor
de Deus, Quero um Trabalho'. Além disso, há pessoas
que ficam mandando para outras um monte de coisas
que fizeram, para provar que são capazes de algo.
Quem quer fazer um network precisa saber se mostrar
na medida certa para não acabar se queimando por ser
impertinente demais", opina.
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Na questão da abordagem, Carla Affonso, diretora geral da
Endemol Globo, diz que não há problema algum em ser franco com
alguém. "No entanto, deve-se sempre deixar claro qual é a sua
intenção e perguntar imediatamente se não há problemas em
abordar o assunto. Da mesma maneira que você precisa de seu colega,
ele seguramente também precisará de você". Carla acredita
que ninguém deve entrar na lista de uma pessoa com a qual não se
sinta à vontade. "O network não pode ser uma coisa falsa,
artificial. Tem de ser feito com naturalidade e sinceridade. A
verdadeira rede de contatos é uma construção mútua de pessoas
que se respeitam em termos profissionais e pessoais", completa
a executiva.
Para Marcelo Ferreira, um bom network prima pela qualidade, mais
que pela quantidade. "Os headhunters dizem que, atualmente, se
você não tiver um bom network, está morto. Depende. O bom network
é aquele em que você tem contatos, e não aquele com nomes que
simplesmente estão na sua lista. É como colocar 3 mil páginas de
favoritos no seu computador. Se eu quiser fazer um evento, por
exemplo, é só comprar um mailing. É a mesma coisa. É um network
de pessoas que estarão lá em um certo momento".
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A
consultora Regina Silva, do Instituto Gyraser, dá
dicas para ninguém queimar o filme enquanto
administra o network. Saiba, entre outras coisas,
como entrar na lista de alguém de forma educada, e
veja como identificar os interesseiros:
Faça
um script sobre o que deseja conseguir com sua rede
de contatos;
Quando
alguém quiser ser seu amigo, tente perceber se é
uma pessoa que dará continuidade, se só quer
extrair ou se haverá troca;
Se
haverá uma festa em determinado mês, comece ou
acione sua rede de contatos bem antes, sem essa de
ficar pedindo convite em cima da hora;
No mínimo,
mande um cartão de Natal ou aniversário para as
pessoas, nem que seja via e-mail. Pense naquele
dentista que o atendeu há anos e sempre lhe manda
um cartão. Quando o dente doer, é dele que você
vai lembrar primeiro;
Lembre-se:
rede de contato é para ser usada, movimentada, e não
guardada como dinheiro debaixo do colchão. |
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Há mais maneiras de saber se a sua rede de contatos poderá lhe
servir bem no futuro, principalmente se você perder o emprego e
quiser que alguém o indique para outro. "Network não é lista
telefônica. Um nome a mais por mês está bom. Serão 12 por ano.
É o vínculo que fará com que o outro o indique", acrescenta
Regina.
Oscar Guerra, diretor executivo do Instituto Trevisan, passou por
várias empresas de grande porte antes de assumir o cargo na
entidade educacional. Com isso, construiu um network naturalmente.
"Trabalhei dez anos como diretor do Citibank. Hoje, conheço
gente nos principais bancos porque boa parte saiu de lá",
conta. Mais tarde, dirigiu a Varig. "Daí o leque abriu mais
ainda. Todo mundo é cliente de avião. Era artista, político,
pessoas de qualquer área que se possa imaginar. Costumo dizer que
poderia até ter me candidatado a algum cargo político, de tanta
gente que conheci na época".
Ele diz que o melhor de ter um network é a possibilidade de
conhecer homens e mulheres que podem se tornar, depois, verdadeiros
amigos. Oscar cita Ayrton Senna, que conheceu profissionalmente na
época em que tinha cargo de diretor do extinto Nacional, e o ídolo
da Fórmula 1 era patrocinado pelo banco.
Sempre foi algum amigo que levou Guerra para trabalhar com ele ou
o indicou para algum cargo. Esse é o lado benéfico de um bom
network, segundo o executivo. Por outro, há quem realmente esteja
em uma rede só por razões comerciais. "Às vezes, o cara até
tem bastante contato, mas, quando você perde o emprego e liga, a
primeira coisa que ele pergunta é 'onde você está agora?'. Se não
estiver em lugar nenhum, a conversa tende a esfriar". |
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