Planos para um futuro breve
 

Por  JOSÉ NORBERTO FLESCH

Quem não tem uma listinha com as promessas de ano novo? Pois está na hora de você fazê-las saírem do papel e tornarem-se realizações. Saiba como montar um calendário eficiente para não perder prazos, e muito menos oportunidades

Já estamos no último terço do ano e se você tem planos para 2006, é hora de arregaçar as mangas. Para não marcar bobeira e deixar os prazos escorrerem pelo ralo, agora é hora de colocar na cabeça, ou na planilha, o que você pretende para o ano que vem. Há quem queira apenas viajar, seja para conhecer uma nova cultura ou afinar o idioma, e não necessariamente trabalhar no exterior, mas muita gente pensa em iniciar uma carreira internacional nos próximos meses. Também a busca por uma promoção ou mesmo uma mudança de emprego tem de ser colocada em questão agora. Ah, o seu caso é a vontade de mudar de área? E vai esperar quanto tempo para tomar uma atitude? A questão é até que ponto tudo isso é possível e por onde começar. A consultora de carreira Regina Silva, do Instituto Gyraser, aconselha, em primeiro lugar, que cada pessoa faça "um balanço anual, como se fosse uma empresa mesmo", antes de definir os rumos para o próximo ano.

Mudança de emprego

Ah, quer dizer que a idéia para 2006 é um novo emprego? Então é hora de uma pausa para reflexão. Quem precisa de um perfil como o seu? Quais são os seus pontos fortes para a competição que travará no mercado com o intuito de satisfazer tal desejo (ou seria necessidade)? Não adianta ir para a briga sem essa reflexão inicial, avisa a consultora Karin Parodi, da Career Center. "E muitas vezes demora a aparecer algo que faça sentido para o que você procura, além de surgirem várias oportunidades em que seria trocar seis por meia dúzia". Mudar de emprego envolve mais fatores. "Além de se preparar para a entrevista, você deve cuidar do network, pois 70% das chances sairão dele", fala Karin.

Regina Silva também propõe outra forma de reflexão. "Antes de pensar em mudar de emprego, é bom analisar o cenário. Se for só para conseguir um aumento de 20% ou 30% em uma outra empresa, o risco não vale a pena", avalia.

Regina Silva também propõe outra forma de reflexão. "Antes de pensar em mudar de emprego, é bom analisar o cenário. Se for só para conseguir um aumento de 20% ou 30% em uma outra empresa, o risco não vale a pena", avalia.

Cursos (MBA, pós, mestrado, especialização, faculdade...)

Outubro é o mês-chave para inscrição em um MBA, mas se você pretende fazer um curso com módulos internacionais, a primeira coisa a verificar é como anda o seu inglês. "Se for um MBA no exterior, serão necessários pelo menos seis meses de preparo", alerta Regina Silva. Nesse caso, é preciso colocar na balança se vale a pena fazer um curso no Brasil ou um intensivão lá fora. "Na ponta do lápis, talvez seja mais barato no exterior", diz.

Karin Parodi, da Career Center, acha que educação continuada sempre tem lugar no planejamento anual. Mas pondera que o curso escolhido deve "ter sentido" para a sua carreira. "Não adianta fazer mais um MBA, só porque todo mundo faz. É fundamental que (o curso) esteja alinhado com seu objetivo profissional, não só para 2006, mas para os próximos cinco anos", aconselha a consultora.

O coordenador geral do Provar e presidente da Fundação Instituto de Administração, Claudio Felisoni, também acha que o planejamento, nesse caso, deve ser a longo prazo. "É necessário pensar o que se pretende fazer com a vida. Dessa forma, 2006 é o ponto inicial, não um episódio", observa. Felisoni aposta ainda em outros fatores que não podem ficar de fora do seu planejamento. "A pessoa deve programar não só os cursos que vai fazer, mas também os livros que precisa ler e os seminários importantes para participar."

Viagem... ou pelo menos um tempo fora do país

Agora, se o seu objetivo em 2006 é passar um tempo fora, seja estudando ou apenas incrementando sua vida para vôos mais altos, tudo bem. Só que a operação "aeroportos, lá vou eu" pode estar casada com outras necessidades. "Quando você pensa em quais os cursos que precisa fazer, é necessário tentar encontrar um link com viagens que também sejam importantes para a sua profissão", fala Regina Silva. Se você é um arquiteto, por exemplo, não pode deixar de conhecer a Itália; se é um analista financeiro, tem de saber bem do mercado financeiro, novos negócios na China, e assim por diante. A consultora indica que um dos fatores que se deve avaliar antes de embarcar na ala internacional é se a viagem aumentará sua rede de contatos. Visitar uma feira, por exemplo, pode ser de grande importância para que traga novidades para a empresa, além de aumentar seu network. Mas é fundamental ficar de olho no calendário. A maior parte dos eventos do gênero no hemisfério norte costuma acontecer no outono de lá. Mesmo que saiba as datas dos principais, convém dar uma busca na internet para encontrar as feiras e os congressos relativos à sua área de atuação.

Para Karin Parodi, a principal questão é mesmo o teor da viagem, quando o período de permanência for mais longo. "Se for só para passar um tempo na matriz da empresa, não compensa. É gasto de tempo e dinheiro. Mas, se aliado ao desejo de conhecer a matriz houver, por exemplo, a possibilidade de desenvolver um idioma ou conhecer projetos que poderão vir para o Brasil, aí, sim, fará sentido", diz. Ela fala ainda que, se a viagem tiver apenas objetivo educacional, deve-se primeiro procurar saber se o curso escolhido só existe lá fora ou se há um equivalente por aqui, o que pode sair muito mais em conta.

Carreira internacional

A viagem prevista para 2006 pode ser um caminho para a expatriação, lembra Karin, e o início de uma carreira no exterior. Mas, apesar de trabalhar em outro país ter um certo glamour, assim como a escolha do curso, "precisa fazer sentido", avisa a consultora. Segundo ela, ir embora por um salário melhor pode ser motivador, porém, se não houver desafios, essa motivação irá embora rapidinho. E ficar desmotivado em outro país, longe dos seus amigos e com possibilidades profissionais mais restritas é meio caminho andado para o arrependimento.

Regina Silva lembra ainda que a mudança de país só deve ser idealizada se o interessado tiver um idioma fluente. Caso contrário, o desafio ganha proporções quase suicidas, já que será necessário mostrar resultados em uma língua que você não domina. Outra alternativa é tirar um mês de férias antes de iniciar o trabalho, pois assim dá tempo de destravar a língua e chegar à nova função mais habituado com o ambiente. "As empresas costumam facilitar essa negociação", diz ela.

Mas Regina acredita que esse tipo de giro na carreira não é um processo que se programa em seis meses. Ela aconselha que tudo seja realizado passo a passo. A busca pode começar pela internet, com a procura por países que facilitem a vida de profissionais estrangeiros; direcionando seus esforços para descolar um emprego em uma multinacional que possibilite job rotation, ou seja, mudança freqüente de países e posições ou que dê oportunidade de uma carreira internacional.

Para Regina, a situação se torna bem mais delicada quando há um parceiro envolvido na decisão. "A primeira fase é a negociação. É o 'quero isso, você topa?'. A resposta pode ser 'para a Alemanha eu não vou, mas topo Inglaterra'. Daí, a pessoa analisa se isso é viável, mas se for 'não saio do Brasil', aí a decisão será o que é mais importante, a carreira ou o relacionamento". Se tiver filhos envolvidos na história, a decisão se torna ainda mais complicada, pois é imprescindível avaliar como seria a adaptação em outra cultura, a distância da família, a compatibilidade do currículo escolar, entre outras questões influenciadas pela mudança.

Promoção na mira

O mesmo tipo de cálculo vale se os planos para 2006 incluírem uma promoção e, principalmente, se essa promoção representar um salto no organograma. A primeira conta é quantos por cento a mais você pretende ganhar, e se a empresa em que você trabalha comporta a nova função que pretende exercer. "Às vezes, para chegar onde se quer, é preciso passar pelas etapas 1, 2 e 3. Na primeira, direto, nem sempre dá", diz Regina.

Ela aconselha que o cargo desejado esteja bem definido e que o interessado se preocupe em preencher os requisitos da função. Caso ainda não esteja apto, que saiba o que precisa fazer para se tornar. Após, de forma sutil, faça seus planos chegarem aos ouvidos da chefia. "Deixe seus superiores saberem disso", orienta.

"Depois de mostrar ao chefe o interesse (na promoção), é bom também discutir com ele um plano de desenvolvimento", diz Karin Parodi. Isso inclui definir o que a empresa espera de quem ocupe o cargo e o que você precisa fazer para chegar lá. "Se a pessoa não é líder, pode se candidatar para a coordenação de um projeto, por exemplo. A tendência é a empresa valorizar essa atitude", afirma.

Olhar todas as promoções como "protecionismo injusto" é um preconceito que você deve deixar de lado, pois nem sempre procede. "Toda empresa tem sua política, mas só isso não sustenta. Alguém pode até ser promovido dentro dessa política, mas se não mostrar resultados, não vai permanecer na posição", analisa Karin.

Mudança de área

Há também quem sonhe em dar um giro de 180 graus na carreira. Como? Levando sua experiência para outra área de atuação. A questão aí é saber se você tem ou não o perfil para o setor escolhido. O ideal, nesse caso, é o auxílio de um consultor e, caso chegue à conclusão que tem o perfil para o que pretende fazer, mergulhe de cabeça na nova área, leia, estude e comece a participar de eventos ligados ao desejado novo trabalho. Procure saber quando e onde acontecem os congressos e feiras, e arme uma rede de contatos.

"Lembre-se que vai competir com pessoas que já estão na área, então você precisa buscar ferramentas que o deixem no mesmo nível, seja um curso ou algum outro tipo de preparo", dá a dica Regina Silva.

E como trocar seis por meia dúzia é assumir um risco que nem sempre vale a pena, pense em como estará o mercado em quatro anos, e verifique se você continuará motivado até lá. Outra questão que deve ser colocada na balança é que a mudança pode significar uma queda no seu salário. Afinal, você estará começando do zero. Por isso, Regina aconselha a fazer a mudança de forma gradual. "Comece com um plano B, vá se preparando e faça a migração quando houver disponibilidade."

QUESTIONA-SE
A consultora Regina Silva, do Instituto Gyraser, afirma que, antes de qualquer planejamento para 2006, você deve fazer a si mesmo (a) quatro perguntas:

 O que eu realmente quero?
 O que posso fazer para realizar isso?


Fonte: REVISTA VIDA EXECUTIVA, 16/09/2005
Autor: JOSÉ NORBERTO FLESCH

Data Publicação: 16/9/2005

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